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Durante esse mês, vivi algumas vezes a experiência de ter que escolher entre a minha felicidade e a de alguém. Primeiro, tentei trazer a minha mãe, que tem o Mal de Alzheimer, para passar um tempo comigo em São Paulo. Acreditava que não precisaria abrir mão da minha vida para poder dar assistência e o cuidado que ela merece. Eu achava que com a convivência, acabaria convencendo a velinha que mudar para cá era um bom negócio. O que eu não esperava é que o impasse entre o meu desejo e o dela nunca será plenamente solucionado.

Eu me recuso ao papel de tia-solteirona-que- cuida-da- mãe. Ao mesmo tempo, minha mãe não quer se submeter a uma rotina que não é a dela. Sofreu com a cidade, chorou com medo de nunca mais voltar e surtou diversas vezes. Para o bem geral, tive que colocar o rabinho entre as pernas e deixá-la de volta na casa dela. Foi aí, que acabei fazendo outra pessoa que amo sofrer. Eu tinha combinado com o meu melhor amigo de ajudá-lo com seu doutorado. Como o prazo de entrega estava apertado, ele contava comigo para organizar todo o material, separar imagens, incluir bibliografia, mas eu me atrapalhei com as datas e viajei. Confesso que eu só pensava em levar minha mãe de volta e não me atendei aos prazos. Resultado? Ele não conseguiu terminar o trabalho a tempo. Teve que entregar o projeto incompleto depois de um esforço tremendo em vão. Sei o quanto ele se entregou nesse projeto e como o trabalho dele tinha tudo para ser magnífico. Mas, minha decisão afetou diretamente o resultado de 5 anos da vida dele.

Essas duas situações provocaram em mim a indagação: o que fazer quando o nosso bem-estar implica necessariamente na tristeza de alguém? Não tenho resposta para essa questão, mas o fato é que me parece absolutamente impossível conciliar os nossos interesses com as expectativas alheias. Parece que realizar os nossos desejos está condicionado a alguém perde alguma coisa. Será? O fato é que, muitas vezes, realizar os nossos desejos de prazer, gozo e ou simplesmente de tranqüilidade está condicionada ao sofrimento de outro, quer a gente veja ou não.

Ser feliz não significa que isso trará o bem comum ou a harmonia geral. Ao contrário, às vezes, nossa felicidade depende de uma escolha, que pode ser fatal para outra pessoa. O fato é que sempre vai ter o momento da escolha: sacrifico a minha felicidade ou a do outro? Às vezes, precisamos aprender a renunciar os nossos desejos, mas como saber o que é melhor: vale a felicidade em cima da tristeza de alguém? Ou o que é pior: vale a alegria do outro em cima da minha frustração? Não são perguntas fáceis que um post irá responder. São questões que os homens levaram milhares de anos e que sempre nos encontraremos no meio do dilema. Ser feliz é uma decisão solitária. Estamos preparados para arcar com tudo isso?

Hoje em dia a felicidade é uma obrigação. Ela é vista com a maior a realização de uma pessoa e, por isso mesmo, a pressão por uma “alegria” constante acaba reduzindo consideravelmente as chances de encontrarmos o que realmente nos satisfaça. Ser feliz passou a ser sinônimo de força, poder e sucesso. Mas, entre tanta euforia, sorrisos fakes e alegrias postiças, como saber o que é realmente estar bem consigo e com os outros?

Será que ter mil amigos no Facebok, ou sair toda a noite para beber com uma turma diferente faz alguém realmente feliz? Lembro de um artigo de Contardo Calligaris, na folha de São Paulo, do 23 de Setembro de 2010, em que o psicanalista observa que “a felicidade dá status, como a riqueza. Por isso, os sinais aparentes de felicidade podem ser mais relevantes do que a íntima sensação de bem-estar”. Por isso, essa busca incessante por ser feliz, acaba provocando ainda mais dor…Deixo para vocês o texto de Calligaris para pensar um poquinho sobre o assunto:

A necessidade de mostrar ao mundo um semblante feliz é uma das grandes fontes de infelicidade.

Uma amiga inventou um jeito de curtir sua fossa. Depois de um dia de trabalho, de volta em casa, ela se enfia na cama, abre seu laptop e entra no Facebook.

Ela não procura amigos e conhecidos para aliviar o clima solitário e deprê do fim do dia. Essa talvez tenha sido a intenção nas primeiras vezes, mas, hoje, experiência feita, ela entra no Facebook, à noite, como disse, para curtir sua fossa. De que forma?

Acontece que, visitando as páginas de amigos e conhecidos, ela descobre que todos estão muito bem: namorando (finalmente), prestes a se casar, renovando o apartamento que sempre desejaram remodelar, comprando a casa de praia que tanto queriam, conseguindo a bolsa para passar dois anos no exterior, sendo promovidos no emprego ou encontrando um novo “job” fantasticamente interessante. E todos vivem essas bem-aventuranças circundados de amigos maravilhosos, afetuosos, alegres, festeiros e sempre presentes, como aparece nas fotografias postadas.

Minha amiga, em suma, sente-se excluída da felicidade geral da nação facebookiana: só ela não foi promovida, não encontrou um namorado fabuloso, não mudou de casa, não ganhou nesta rodada da loto. É mesmo um bom jeito de aprofundar e curtir a fossa: a sensação de um privilégio negativo, pelo qual nós seríamos os únicos a sofrer, enquanto o resto do mundo se diverte.

Numa dessas noites de fossa e curtição, minha amiga, ao voltar para sua própria página no Facebook, deu-se conta de que a página não era diferente das outras. Ou seja, quem a visitasse acharia que minha amiga estava numa época de grandes realizações e contentamentos. Ela comentou: “As fotos das minhas férias, por exemplo, esbanjam alegria; elas não passaram por nenhum photoshop, acontece que são três ou quatro fotos “felizes” entre as mais de 500 que eu tirei”.

Logo nestes dias, acabei de ler “Perché Siamo Infelici” (porque somos infelizes, Einaudi 2010, organizado por P. Crepet). São seis textos de psiquiatras e psicanalistas (e um de um geneticista), tentando nos explicar “por que somos infelizes” e, em muitos casos, por que não deveríamos nos queixar disso.

Por exemplo, a infelicidade é uma das motivações essenciais; sem ela nos empurrando, provavelmente, ficaríamos parados no tempo, no espaço e na vida. Ou ainda, a infelicidade é indissociável da razão e da memória, pois a razão nos repete que a significação de nossa existência só pode ser ilusória e a memória não para de fazer comparações desvantajosas entre o que alcançamos e o que desejávamos inicialmente.

Não faltam no livro trivialidades moralistas sobre o caráter insaciável de nosso desejo ou evocações saudosistas do sossego de algum passado rural. Em matéria de infelicidade, é sempre fácil (e um pouco tolo) culpar a sociedade de consumo e sua propaganda, que viveriam às custas de nossa insatisfação.

Anotei na margem: mas quem disse que a infelicidade é a mesma coisa que a insatisfação? E se a infelicidade fosse, ao contrário, o efeito de uma saciedade muito grande, capaz de estancar nosso desejo? Que tal se a infelicidade não tivesse nada a ver com a ansiedade das buscas frustradas, mas fosse uma espécie de preguiça do desejo, mais parecida com o tédio de viver do que com a falta de gratificação? Em suma, você é infeliz porque ainda não conseguiu tudo o que você queria, ou porque parou de querer, e isso torna a vida muito chata?

Seja como for, lendo o livro e me lembrando da fossa de minha amiga no Facebook, ocorreu-me que talvez uma das fontes da infelicidade seja a necessidade de parecermos felizes. Por que precisaríamos mostrar ao mundo uma cara (ou uma careta) de felicidade?

1) A felicidade dá status, como a riqueza. Por isso, os sinais aparentes de felicidade podem ser mais relevantes do que a íntima sensação de bem-estar;

2) além disso, somos cronicamente dependentes do olhar dos outros. Consequência: para ter certeza de que sou feliz, preciso constatar que os outros enxergam minha felicidade. Nada grave, mas isso leva a algo mais chato: a prova de minha felicidade é a inveja dos outros.

O resultado dessa necessidade de parecermos felizes é que a felicidade é este paradoxo: uma grande impostura da qual receamos não fazer parte e que, por isso mesmo, não conseguimos denunciar.

Por que será que hoje em dia o nosso prazer está tão associado ao consumismo? No meio do consumo de corpos, sonhos, roupas, acessórios e ideias, esquecemos como é ser livre de todo esse condicionamento globalizante e liberal. Quando percebemos, estamos sofrendo porque não TEMOS e acreditamos piamente que isso define o que SOMOS.

O fato é que não conseguimos escapar também da pressão que nos é imposta pela possibilidade de se fazer, de se construir, de se empoderar, seja por um estilo de vida, seja por autoafirmação social. Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da relação afetiva e amorosa? Em busca de resposta, procurei ajuda nos filosófos. Divido aqui com vcs a primeira parte de um vídeo muito interessante sobe a Felicidade em Epicuro. Vale aqui chamar atenção para um trecho que explica, em parte esse impulso pelas compras: “Não entendemos as nossas necessidades e, por isso, caimos vítimas de desejos substitutos”.

E se…

Comecei a escrever esse Blog com o objetivo de pensar sobre a felicidade, sem dar fórmulas prontas ou recorrer a velhos clichês. Meu interesse era pensar de uma forma inteligente como manter o Joie de Vivre, o encantamento pela vida, sem perder a lucidez, a consciência e o senso crítico.

Depois de um ano, olho para esse blog e penso se é realmente possível falar sobre isso sem recorrer ao óbvio: identificar a minha própria concepção de felicidade. No meio de tantas pressões, regras e expectativas é possível distinguir o MEU desejo do desejo dos OUTROS? Acho que exatamente por não conseguir responder essa pequena questão, não consegui ir adiante com as postagens. Afinal, o que é realmente genuíno no meu desejo: o sucesso profissional ou virar caiçara em Paraty? Quero aproveitar a minha liberdade ou ter alguém do meu lado na alegria e na tristeza, na saúde e na doença? Assumir meu gosto pela boa vida e os prazeres mundanos ou buscar um estilo de vida mais padronizado?

Pode parecer loucura, mas eu quero tudo isso. Mesmo que uma coisa pareça exatamente o oposto da outra. Mas, o fato é que nunca saberei de antemão se realmente fiz as melhores escolhas: cuidar da minha mãe ou da minha própria vida. Quem vai me dar a melhor resposta?

Alguém já falou que o problema da vida é que ela não tem ensaio. Penso: “Graças a Deus que não”. De um jeito ou de outro, nossas escolhas vão definindo felicidades possíveis e não há como se conquistar isso previamente. Talvez, a gente sempre fique com um olhinho lá naquela outra fresta, perguntando: “ e se…” Mas, é a autonomia de poder escolher uma trajetória e não outra, que faz toda a diferença na experiência humana.

Minha mãe tem Alzheimer. Estou aprendendo com ela, que a mente da gente é tão poderosa, mas tão poderosa, que a gente cria o nosso próprio “final feliz”. Se a gente não gostou muito bem do rumo da história ou não foi tão feliz com alguém, a vida dá mais uma chance para mudar o final! Vc pode me perguntar: “que triste precisar inventar uma outra vida para justificar toda uma existência”. Respondo: “Que bom que a gente tem a oportunidade de escrever o nosso próprio enredo, de um jeito ou de outro”. Mesmo que seja um delírio, é essa a boa história que vai valer a pena contar.

Para o cineasta Stanley Kubrick,”a falta de sentido da vida força o homem a criar seu próprio significado”. Por isso, em vez de procurar nos outros as respostas para as nossas escolhas, o que importa é aceitar o desafio da vida, com todas as suas incoerências e limitações, sabendo que só o nosso poder de decisão pode construir algo real e plenamente satisfatório. Como lembra Kubrick,” Por mais vasta que seja a escuridão, nós devemos nos fornecer luz própria”.

Natureza fast food

Trabalho em Itapecerica da Serra e uma das vantagens de estar tão longe é exatamente estar distante dos carros, do estresse, das buzinas e da pressão do centro da cidade. Eu e uma amiga de trabalho descobrimos como alivar a pressão quando o “bicho tá pegando”: a gente senta na grama, olha a paisagem e coloca os pés naquele matinho gelado. Um alívio imediato, gratuito e fácil de conseguir. Essa meia horinha sob uma árvore ou sentada na grama a forma que encontro para relaxar ou simplesmente me concentrar em mim.
E isso não é papo de bicho grilo. Meu famoso amigo Aramis me encaminhou um artigo, que saiu na Folha há pouco tempo, com uma pesquisa feita pela Universidade Essex, que constatou que 5 minutos de atividade como caminhada, jardinagem, andar de bicicleta são suficientes para melhorar o humor e auto-estima. Os efeitos se potencializam com a proximidade da água.
A pesquisa foi divulgada na edição de 4 de maio da Enviromental Science & Tecnology e não é nenhuma novidade. Todo mundo sabe dos benefícios da prática de exercícios junto à natureza para a saúde mental. A diferença nesse estudo é que essa é a primeira a determinar o tempo em que os resultados benéficos aparecem. Dividindo um grupo de mais de mil pessoas, na Grã-Bretanha, os pesquisadores comprovaram que esse é o tempo necessário para elevar a auto-estima, inclusive para doentes e idosos.
Isso lembra do tempo em que morava em Fortaleza. Por puro instinto, procurava o mar nos momentos de crise na adolescência. Fugia para ver o pôr-do-sol e para ficar comigo mesma e meus sonhos juvenis. Quando mudei para São Paulo, sentia falta desses momentos. Procurava um lugar para me aliviar e como não tinha me abrigava na comida. Cheguei a conclusão que todo mundo precisa de um ninho. Um lugar para se refugiar e ter um respiro. No trabalho estou voltando a ter isso. E recomendo, mesmo para as pessoas que estão no centro de concreto, momentos fast-food com a Natureza. Cinco minutinhos, minha gente. Cinco minutinhos!!!

Rapidinhas….

“Acordar não é dentro
Acordar é ter saída,
Acordar é reacordar-se
Do que em nosso redor gira”

(João Cabral de Mello Neto)

Botero

Essa semana li um artigo na TPM muito interessante e gostaria de dividir com vcs. A psicanalista Joana de Vilhena Novaes, coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza, da PUC-RJ, fez uma pesquisa interessante sobre a questão do corpo para as cariocas. De acordo com o estudo, as mulheres pobres têm uma relação muito mais lúdica com o corpo. Não deixam de fazer nada porque estão gordinhas, enquanto as mulheres de classe média se escondem quando estou acima do peso.
Isso não quer dizer, que as mulheres do subúrbio não tenham consicência que estão fora do padrão. Elas sabem que estão gordas, mas isso não é impeditivo para usarem biquini, mostrarem o corpo ou se sentirem sexies. “Sei que eu tô gorda, mas não deixo de ouvir ‘gostosa’, o nego não deixa de comparecer sem dó nem piedade, eu não deixo de passar o rodo geral”.
Esse ano estive no Rio e me impressionei com isso. A gente tem a sensação que o culto ao corpo no Rio é muito maior do que em qualquer cidade brasileira. Talvez, seja mesmo. Mas, ao mesmo tempo, o Rio me pareceu muito mais democrático nesse quesito. Enquanto eu me escondia no meu maiô preto, vi as gordinhas de fio dental, conquistando seu lugar ao sol e na maioria das vezes com um gato à tiracolo. Lógico, que isso não é sinônimo de estar bem consigo ou de ter uma auto-estima elevada. Mas é um jeito muito mais livre de lidar com as própria imperfeições.
Quando voltei do Rio meu primeiro intuito foi comprar um vestido tomara que caia e exercer livremente o meu direito de me mostrar. Depois de usá-lo duas ou três vezes, guardei o vestido no armário e voltei aos modelitos “esconde gordurinhas”. Depois de ler o artigo, a vontade é tirar o vestido e o corpo do armário e assumir a gordinha gostosa que eu sou !!!